terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Recorte

Então você me olha com esses seus olhos de esfinge: decifra-me ou devoro-te. Eu me sinto afundar nesse par de cores mais lindas do meu dia enquanto fico cada vez mais presa nesse seu olhar.
Te abraço forte e sinto seu coração bater perto do meu. E, por mais clichê que seja, não consigo não desejar poder recortar esse momento e passar algumas horas admirando o "nós dois".
Sinto o cheiro da sua pele e suas mãos tão cuidadosas. Sinto meu sorriso (aquele que é todo seu) grudado no rosto como se fosse a expressão mais correta para mim. Sinto o sangue correr depressa enquanto o beijo é lento.
Então me afasto dez centímetros para poder olhar bem para esses seus olhos de esfinge: escuros, misteriosos e lindos. Conheço mais de você e entrego-me cada vez mais.
Então digo com meu olhar: - decifro-te e devora-me.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Heróis foram feitos para sobreviver. E você, amor, foi feito para ser um herói.
Não importa se está frio demais, difícil demais, doído demais. Você vai passar por tudo isso, vai enfrentar seus dragões como sempre fez, vai renascer das cinzas como a fênix metafórica que nós dois sabemos que você é. E eu vou estar aqui, desempenhando bem meu papel - não de donzela esperando ser salva, eu sou aquela que te ajuda a vencer os obstáculos para alcançar a princesa.
Você vai conseguir, meu bem. Vai partir meu coração, mas ninguém vai se importar no fim: essa história deve ser sobre um herói, não sobre uma menina qualquer.
Larga essa auto-piedade de lado que a única que vai sofrer serei eu. Aceita seu destino heróico, quebra sua maldição, volta pra casa como um vencedor. Seja feliz.
Sabe, heróis foram feitos para sobreviver. E você faz isso bem demais. No fundo, sempre existe uma centelha restante de vida. É o suficiente.
Então me deixe te ajudar. Mas não me jure seu amor. Claro que vou ser importante para você, mas não vai ser meu nome que você vai sussurrar no último capítulo. Então pulemos essa parte, que meu nome nem vai ser lembrado. Eu só serei "a que costumava ajudar o herói". Aceito isso. Aceite. Sobreviva.
Porque heróis foram feitos para sobreviver. Mas, meu amor, você foi feito para mais. Você vai viver.
E eu, no fim, provavelmente vou viver também. Esquecida, sim, mas eu vou me lembrar de você. De como você lutou tão brava e duramente. De como venceu. De como se tornou o herói que eu sabia que seria.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Olho para minha janela e rezo pra que chova.
Quero que a chuva entre e molhe o meu piso. Que alcance minha cama. Que bata no meu rosto e lave meus pecados.
Não sou digno, mas que a água caia enquanto durmo e me acorde dos meus tantos pesadelos.
Quero que a chuva seja minha redenção, que me mostre que ainda sou humano. Quero ser capaz de sentir algo além dessa mediocridade ante minha existência.
Rezo para que a chuva me traga de volta a vida que deixei passar.
Mas a manhã vem e a chuva nunca cai. E quando o sol acorda, não é a chuva que pode me impedir de levantar e conviver com o que fiz. Não é a chuva que pode me livrar das correntes que os dias trazem.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Acho que você entende meus sorrisos. Aqueles que aparecem enquanto estou quieta e você acha graça. Não que saiba os porquês, mas entende que são por sua causa.
Acho que você entende meus silêncios.
Entre todas as pessoas que conheci, foi justamente você quem se encaixou bem dentro deles.
Logo eu, que sempre fui tão cheia de palavras, ficando quieta, ficando calma, parecendo tão tranquila. E você, do meu lado, numa cena romântica enlatada e mesmo assim tão correta.
Acho que eu começo a entender seu jeito.
Começo a entender sua gentileza por baixo da distância. Sua arrogância do lado da sua preocupação comigo. Suas contradições que me fazem sorrir enquanto posso ouvir seu coração batendo.
Começo a entender você, que me parecia tão contra demonstrações de afeto, colocando meu cabelo rebelde atrás da minha orelha e beijando minha testa.
Acho que começo a conseguir juntar a imagem que eu tive, daquele cara frio, com a que tenho formado, a do cara que lembra a data do nosso primeiro encontro. E é engraçado que dois lados tão discrepantes de uma mesma pessoa se encaixem tão naturalmente nos meus raros e naturais silêncios. Mas, talvez, seja ainda mais engraçado que eu, logo eu, não só me sinta confortável com esse encaixe, mas queira que eu também caiba nos seus.
Então o que você vê é uma Carolina cheia de gostos e atitudes diferentes das que esperavam dela. Mas eu acho que você também não tem agido como o esperado. E talvez por isso você entenda meus silêncios - e meus sorrisos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Você disse que a vida era um grande mistério que a gente nunca consegue entender. E que tudo é grande demais e passa despercebido; quando a gente nota, acabou.
Mas eu, eu gosto dos detalhes. Enquanto a vida passa, eu vou pegando as pequenas coisas e juntando, juntando, juntei. E quando noto, as coisas tão passando e eu tô guardando começos e meios, vivendo finais e mais finais.
Eu sou do tipo que carrega todo aquele peso metafórico que a gente carrega na vida.
Mas você, você vive solto, sem esperar nada de ninguém. Sem guardar nada de ninguém. Sem levar peso nenhum.
Você voa, eu me arrasto. Mas é um pouco engraçado: no meio da noite, sempre parece que é o contrário.

Silêncio incomodo
Que esconde, que busca  a solidão
Busca um olhar que nunca está lá
Que busca os braços de quem não pode encostar.
Silêncio revoltado, desamparado
Sem nenhuma pretensão.
Silêncio que se faz, que reverbera na escuridão.
Saudade de uma canção.
Saudade de tua mão, de ouvir tua opinião.
Minha voz emudecida com a ascensão de teu avião
Minha boca seca, minhas lágrimas em profusão.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

X

Novembro chegou e passou. E minha única vontade é conseguir escrever sobre meu coração partido há quase dez anos.
Faltam dois dias para completar uma década. Mais alguns dias e completo dez anos sem você. Dez. Cento e vinte meses sem ver você, falar com você, ouvir palavras suas. Três mil seiscentos e cinquenta e dois dias sentindo sua falta me bater, me sangrar, me partir em pedaços cada vez menores e mais tristes.
Às vezes eu ainda me pergunto como isso foi acontecer. Como você estava lá e de repente era só uma lembrança na minha cabeça de menina de nove anos? Eu era tão nova para lidar com essa ausência e de repente o universo me vem com essa dor maior que eu, maior que a minha vida, maior  até do que a sua vida (que foi curta. Foi muito curta). Como isso foi acontecer?
E agora faltam dois dias e novembro vai ter seu último dia, e dez anos vão ter se passado desde que você teve o seu último dia. Eu vivi mais tempo sem do que com você. Vivi menos tempo com você do que com essa ausência presente em cada momento.
Dói tanto saber que eu não te disse que te amava na última vez em que nos falamos. Será que você sabia? Será que imaginava que se partisse faria essa falta que só quem é amado faz? Tantas coisas que eu deixei de te dizer, tantas coisas que eu devia ter dito.
Naqueles primeiros dias sem você, dias em que você estava em coma, eu fazia uma lista de tudo que queria te contar quando você acordasse. Mas você não acordou e eu mantenho essa lista. A cada grande acontecimento, eu acrescento um tópico nessa lista gigantesca de coisas que você ia querer saber. E essa lista absurda e sem sentido é a única forma que encontrei de sentir que tenho minha mãe nos meus dias.
Dentre tantas outras dúvidas, eu me pergunto se hoje eu sou alguém de quem você se orgulharia. Se eu te decepcionaria como filha ou como pessoa. Se eu sou uma pessoa ao menos parecida com quem você era.
Eu queria tanto ter mais um dia com você! Eu queria tanto, pelo menos mais uma vez. E então eu finalmente poderia dizer que te amo.
Mas novembro já chegou e passou. E, no dia trinta, dez anos vão ser completados.